O que a maior conferência mundial de Análise do Comportamento disse sobre o uso da Realidade Virtual e Inteligência Artificial na prática clínica
A Therafy participou da ABAI 2025 em San Francisco, foram quatro dias no Moscone Center acompanhando pesquisas, conversando com BCBAs e mapeando para onde o campo está caminhando. Um dos temas que apareceu de forma recorrente, foi o uso de Realidade Virtual (RV) como ferramenta clínica dentro da Análise do Comportamento Aplicada, entretanto a temática não foi tratada como novidade tecnológica, mas sim como recurso metodológico com respaldo empírico em expansão.

O que os dados mostraram
Uma das pesquisas apresentadas investigou a ressurgência comportamental, definida como o retorno de um comportamento que havia sido reduzido ou eliminado, quando uma resposta alternativa que o substituía passa a não ser mais reforçada. Na prática clínica com TEA e TDAH, isso explica por que comportamentos problemáticos que pareciam superados retornam em momentos de mudança de contexto, perda de suporte social, transição de escola, férias ou qualquer situação que reduza o acesso ao reforçamento das habilidades alternativas que foram treinadas.
A pesquisa desenvolvida na Universidade da Carolina do Norte comparou dois grupos, um que iniciou o protocolo em ambiente de RV e outro que iniciou presencialmente. O resultado mais significativo não estava na diferença entre os grupos, mas na equivalência, já que o treino em RV produziu padrões de resposta estatisticamente similares ao treino presencial, sem perda de efetividade clínica, ou seja, o estudo demonstrou equivalência entre o treino presencial e o treino no ambiente virtual.
Além disso, os pesquisadores foram surpreendidos com um achado secundário muito interessante e inesperado; os participantes demonstraram comportamentos dentro da RV que simplesmente não apareceram nas avaliações ou intervenções presenciais, ou seja, o ambiente imersivo criou condições de observação que o consultório convencional não consegue replicar. Sendo assim os resultados foram os mesmos, mas o ambiente virtual propiciou a visualização de uma amplitude maior de comportamentos, com mais espontaneidade e respostas mais plurais, fora do roteiro, comparado ao ambiente clínico. Os pesquisadores explicaram esse fenômeno como a capacidade da RV funcionar como um ambiente para simulação com controle de estímulos e variáveis, mas com a autenticidade e naturalidade que se aproximam da vida real.
De forma aplicada, o fenômeno foi demonstrado na pesquisa de Martinez-Perez et al. sobre comportamentos de esquiva social na ABAI 2025. Neste estudo, quando a inclusão social foi reduzida, os comportamentos de esquiva que haviam sido substituídos voltaram com força proporcional à magnitude da mudança de contexto. Isso torna a ressurgência um dos argumentos mais sólidos para a necessidade de ambientes de treino que permitam controle e amplitude progressiva do contexto, o que é precisamente a lógica por trás da estrutura de fases do Thera Social.
Nesse contexto, os achados apresentados também ajudam a compreender o potencial de ferramentas como o Thera Social no desenvolvimento de habilidades sociais pois, ao oferecer diferentes cenários de interação em um ambiente imersivo, a plataforma possibilita que terapeutas trabalhem competências sociais em condições que combinam controle de variáveis com experiências próximas às demandas do cotidiano. Como vimos, essa característica é particularmente relevante para indivíduos que apresentam comportamentos de esquiva social, dificuldades de iniciação de interações ou desafios na participação em atividades sociais, favorecendo a prática gradual de habilidades em múltiplos contextos e ampliando as oportunidades de observação clínica. À luz das pesquisas apresentadas, ambientes virtuais imersivos podem representar um recurso complementar para promover repertórios sociais mais flexíveis e melhor preparados para diferentes situações da vida real.

O que os achados das pesquisas significam para a prática clínica brasileira?
A tecnologia é capaz de ampliar o que o terapeuta consegue ver, medir e intervir, sendo assim, o profissional que compreende esses recursos, buscando aprender como integrá-los, não está adotando uma tendência, mas pode, por meio do domínio tecnológico e teórico expandir o alcance da sua prática clínica.
Ao menos dez universidades americanas estão com pesquisa ativa nessa interseção entre RV, IA e neurodesenvolvimento, sendo elas: Rowan University, Vanderbilt, USC, Stanford, UT San Antonio, Indiana University, University of Mississippi Medical Center, University of Washington, Yale e o sistema SUNY. Da mesma maneira, o Brasil tem pesquisas sobre a temática em desenvolvimento na Universidade Federal do Espírito Santo, Unesp Marília, Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e Instituto Federal do Rio Grande do Norte, todas elas, apoiadas pela Therafy. Sendo assim, o Brasil tem clínicos, pesquisadores e tecnologia para ocupar um lugar de protagonismo nessa conversa e a Therafy está integrada a essa construção.
Tecnologia a serviço da clínica: o lugar da Realidade Virtual e da Inteligência Artificial na prática baseada em evidências
O desenvolvimento da ciência está em estreito relacionamento com os instrumentos e recursos disponíveis nos períodos da história da humanidade. Desta forma, a Realidade Virtual e a Inteligência Artificial ocupam, na clínica contemporânea, um lugar análogo. Não se configuram como teorias novas, não são abordagens alternativas, mas sim ambientes e ferramentas que ampliam a capacidade do clínico de aplicar, com mais precisão e em mais contextos, o que a ciência já consolidou até aqui.
Epistemologia, teoria e método primeiro, tecnologia depois
Toda intervenção clínica responsável começa com perguntas epistemológicas como, o que estamos afirmando saber, com base em quê, e com que grau de confiança? A Análise do Comportamento Aplicada construiu décadas de respostas consistentes, onde o comportamento é compreendido como função do ambiente, mensurável, e pode ser modificado por meio de contingências planejadas com base em dados. E neste contexto, a tecnologia não altera essa ou outra epistemologia, ela a serve.
O uso da RV sem ancoragem na teoria, sem um protocolo com fases definidas, sem objetivos funcionais mensuráveis e sem critérios explícitos de progressão não é uma ferramenta clínica, é apenas uma experiência imersiva voltada ao entretenimento. Sendo assim, a diferença fundamental entre as duas está na estrutura conceitual que organiza o que acontece antes da introdução da tecnologia, durante a experiência e após o uso dela.
O mesmo vale para a Inteligência Artificial, os algoritmos que identificam padrões em dados comportamentais só produzem informação clinicamente relevante quando o clínico sabe o que está perguntando, por que está perguntando, e o que fará com a resposta. A IA pode mudar o ambiente em que a análise clínica acontece, como afirmou Jingqi Li, pesquisadora da Universidade da Califórnia, em sua palestra denominada “O papel da inteligência artificial na Análise do Comportamento Aplicada, Uma revisão conceitual de suas aplicações potenciais”, na ABAI 2025. Sendo assim, o uso adequado da inteligência artificial pode enriquecer o contexto da análise clínica dos profissionais, proporcionando mais dados e uma amplitude de correlações entre eles.
O que a tecnologia abre que não estava disponível antes
Seria igualmente impreciso reduzir RV e IA a meros substitutos digitais de recursos já existentes, já que elas abrem possibilidades que simplesmente não existiam antes, e reconhecer isso é parte do compromisso com a ciência.
Os pesquisadores na ABAI 2025 descrevem que pela primeira vez na história da prática clínica, é possível controlar variáveis ambientais com precisão experimental fora do laboratório. É possível definir quais estímulos existem em uma cena social, programar as consequências de cada resposta, modificar o nível de complexidade da situação entre fases, e registrar automaticamente indicadores comportamentais que a observação humana não consegue capturar com a mesma facilidade e objetividade.
Dados como latência de resposta, padrões de movimento, desvios de atenção visual, frequência de interrupções já existiam antes da tecnologia, mas eram pouco visíveis e mensuráveis na prática clínica convencional e atualmente, com o uso da RV e IA integradas a um protocolo estruturado, eles se tornam parte do processo de tomada de decisão clínica. Sendo assim, a integração da tecnologia possibilita uma expansão do que é possível observar, medir e intervir.
A pesquisa apresentada por Barbara et al. na ABAI 2025 , da Universidade da Carolina do Norte, confirmou equivalência funcional entre o treino in loco e o treino em RV para tarefas equivalentes, isso significa que o contexto de intervenção pode ser ampliado sem perda de validade clínica. Já Martinez-Perez et al. mostraram que comportamentos de esquiva social podem ressurgir quando o suporte é retirado, apontando para a necessidade de ambientes que permitam controle progressivo dos estímulos e experiências de aproximação com a vida real ao longo do processo terapêutico, o que é totalmente possível nos ambientes de RV já disponibilizados pela Therafy.
O que a tecnologia não é
A clareza sobre o que a tecnologia oferece exige igual clareza sobre o que ela não é, sendo assim, vale salientar que, um ambiente de RV, por mais bem construído que seja, não é terapêutico por si mesmo. A imersão de forma isolada não produz mudança comportamental, o que produz a mudança almejada é o processo terapêutico mais amplo, com análise, planejamento e uma abordagem profissional que conecta a vivência à história de cada paciente, com monitoramento dos dados ao longo das sessões e tomada de decisões com base nessa leitura.
No entanto, somado a isso, a relação terapêutica precisa existir e o raciocínio clínico é fundamental. Portanto, retirar qualquer um desses elementos e substituí-los pela tecnologia não é inovação, é abandono do que a ciência levou décadas para construir. Na prática clínica, o que vai trazer resultados satisfatórios é um protocolo que prevê a variação progressiva de contexto, que planeja a generalização desde o início da intervenção, com aproximações da vida real e com monitoramento contínuo dos dados.
Integração como princípio clínico
A palavra que organiza tudo isso é integração, não integração no sentido de combinar ferramentas, mas integração no sentido epistemológico, uma prática em que epistemologia, teoria, metodologia, técnica e procedimento formam um sistema coerente, onde cada elemento justifica e é justificado pelos demais.
A tecnologia entra nesse sistema como recurso, um recurso poderoso, com capacidades que não existiam antes e que expandem genuinamente o alcance da prática clínica baseada em evidências. Mas recurso. Útil apenas a serviço de uma epistemologia que antecede qualquer dispositivo e que permanecerá válida independentemente de como a tecnologia continue, ou não, a evoluir.
O terapeuta que compreende isso não adota RV, IA ou qualquer outra tecnologia porque são tendências, mas principalmente porque reconhece nelas uma forma mais precisa de fazer aquilo que a ciência já demonstrou funcionar.
Essa precisão e cuidado, no trabalho com crianças e adolescentes com TEA e TDAH, onde cada fase de desenvolvimento tem uma janela e onde a generalização de habilidades sociais pode definir trajetórias de vida inteiras, é o que realmente importa.
Se você quer saber mais sobre a tecnologia Therafy e como integrá-lo ao seu trabalho, entre em contato conosco aqui.
Psic. Me Francyelle Lima, Psicóloga CRP MS 06122-7 · Co-fundadora Therafy